A inteligência artificial é uma área de estudo e uma ferramenta tão antiga quanto a linguagem computacional, fundada como área do conhecimento por volta de 1956 1, na Universidade de Dartmouth, nos EUA. Atualmente, porém, “inteligência artificial” é quase sinônimo de ferramentas generativas. Os agentes de IA 2 (ChatGPT, Claude, Gemini, Grok, para ficar nos mais famosos) tem sua interface elaborada para parecer uma conversa, uma troca de mensagens, o que gera logo a impressão de uma troca genuína. Essas ferramentas, porém, nada mais são do que potentes e exaustivamente treinados preditores de texto.
Descrevê-las assim não é ignorar ou minimizar as capacidades e as potencialidades desses agentes. Antes, é valorizar aquilo no qual eles são realmente extraordinários: organizar informações, formatar escrita, ordenar dados. As capacidades vão muito além dessas, mas há algo que, por definição e por natureza, essas ferramentas não são capazes de ser: confidentes.
Os agentes de IA tem como papel produzir texto coerente mediante a questão colocada pelo usuário. É um jogo de probabilidade em que, baseado num extenso treino, a melhor palavra é escolhida para seguir-se de anterior, e gerar um texto que seja coerente e corresponda à expectativa do usuário. Ou seja, por definição, trata-se de uma resposta que se propõe à agradar, mesmo quando solicitado para que não o faça. Os problemas não param por aí. Apesar de todo o esforço e investimento bilionário para aprimoramento, ainda são ferramentas propensas à erros e “alucinações” 3, que é o termo técnico aplicado para quando a resposta foge ao padrão esperado. Quanto mais longa uma interação com agente de IA, maior o risco de falhas nas suas barreiras de proteção.
Há quem, por falta de opção, limitações ou simplesmente por falta de informação adequada, tome essa troca presente na interface com a IA como uma potencial sessão de terapia, com a intenção de desabafar, ser ouvido e ouvir devolutivas. Há um risco inerente à essa interação, mesmo considerando os desfechos menos perigosos. No limite, a psicoterapia pressupõe discordâncias, desafios e convites à sair da zona de conforto. Um agente de IA jamais seria capaz de desempenhar o papel que outro psiquismo desempenha, portanto, esperar algo terapêutico de uma interação com agente de IA é iludir-se. Para além disso, existe o fenômeno da “psicose da IA” 4, em que usuários foram levados à crenças bizarras e até ao suicídio a partir de longas, solitárias e constantes trocas com “a IA”.
Pessoas que buscam tratamento para transtornos psiquiátricos estão quase sempre vulneráveis e com algum grau de desespero, visto o sofrimento psíquico ser algo tão difuso e pervasivo. Pode parecer algo inocente digitar texto e ouvir uma resposta elaborada por algo aparentemente “inteligente”, mas nada ainda substitui a troca humana numa relação terapêutica genuína.
É papel dos profissionais de saúde esclarecer e apontar caminhos para as pessoas sob nosso cuidado, ainda que isso muitas vezes envolva confrontação e desacordo. Como tantas outras ferramentas revolucionárias, os agentes de IA tem um papel crescente em diversos campos da economia e das atividades humanas, mas ainda estão (e provavelmente sempre estarão) aquém do que uma pessoa genuinamente interessada e capacidade pode fazer em termos de cuidado para com a outra. A cura psíquica se dá a partir do contato de dois psiquismos. Aquele que presta o cuidado se presta como diapasão ao outro, fornecendo gabarito para ajuste de frequência. Cuidar é estar junto.
- Kaplan A, Haenlein M (2018), “Siri, Siri in my Hand, who’s the Fairest in the Land? On the Interpretations, Illustrations and Implications of Artificial Intelligence”, Business Horizons, 62: 15–25, doi:10.1016/j.bushor.2018.08.004
- “AI Agents: The Next Generation of Artificial Intelligence”. The National Law Review. December 30, 2024. Acesso em 12 de Agosto de 2026.
- Edwards, Benj (6 April 2023). “Why ChatGPT and Bing Chat are so good at making things up”. Ars Technica. Acesso em 12 de Agosto de 2026.
- Østergaard SD. Will Generative Artificial Intelligence Chatbots Generate Delusions in Individuals Prone to Psychosis? Schizophr Bull. 2023 Nov 29;49(6):1418-1419. doi: 10.1093/schbul/sbad128. PMID: 37625027; PMCID: PMC10686326.
